Conheça o Jardineiro da República, que traz a Mata Atlântica de volta ao centro
Eduardo Paziam deixou carreira bem-sucedida na moda para se dedicar a revitalizar os canteiros da cidade com plantas nativas
“Olha como ela está grande e bonita…”, diz Eduardo Paziam, 55, apontando para uma calêndula fincada na esquina da Avenida Ipiranga com a Rua Basílio da Gama, no centro. Esta é só uma dentre as mais de 3 000 mudas plantadas por Paziam em sua jornada para restaurar a vegetação em praças da região, onde mora há 26 anos. Seu objetivo é ambicioso e nobre: trazer de volta a Mata Atlântica para a capital.
A empreitada começou em 2023, quando criou o Projeto Pazipê — uma junção de “Pazi”, seu apelido, e “ipê”, em homenagem à primeira espécie que plantou no bairro. Depois de adotar dois jardins de chuva na Praça da República, em frente ao Mundo Pão do Olivier, passou a substituir espécies exóticas por outras nativas. Assim, sobre as estruturas de drenagem, criou pequenas florestas que absorvem a água, evitando alagamentos mesmo em dias de chuva forte.
O jardineiro da República, como é conhecido, cuida de mais cinco canteiros ao longo da Avenida São Luís — onde plantou ipês-amarelos de um lado e brancos do outro —, um pomar na Praça Dom José Gaspar e um bosque sob o Viaduto Santa Ifigênia, inaugurado há um mês.
A atuação de Paziam ocorre por meio do programa Adote uma Praça, da prefeitura, que permite que empresas apadrinhem áreas públicas em troca de uma placa publicitária no local. Ele estimula comerciantes do centro a aderirem ao programa e revitaliza, ele próprio, as áreas, a um custo mínimo, geralmente uma diária de um ajudante semanal. “Sempre contrato pessoas em situação de rua ou refugiados”, diz o moço do dedo verde, que faz esse trabalho de forma voluntária.
Militante fervoroso da conservação e do resgate da Mata Atlântica, Paziam se enfurece quando, por exemplo, elogiam sua “costela-de-adão”. “Não fala esse nome! Costela-de-adão é exótica, invasora. Isso aqui é um guaimbê”, corrige, reforçando a importância de privilegiar espécies como iresines, clúsias e ora-pro-nóbis, todas cultivadas em seus jardins. “Não é uma vaidade. As exóticas podem comprometer todo o bioma, vão se reproduzindo até que as árvores daqui entram em extinção”, explica ele, que acorda todos os dias às 5h30 da manhã para limpar os canteiros e regar as plantas.
Quem vê o homem de mãos sujas de terra e botas de borracha circulando com um velho carrinho de feira não imagina que, até cinco anos atrás, ele desenhava tecidos de luxo para a indústria de moda internacional. “Tinha uma vida boa, mas estava fazendo uma coisa que era contra o que eu acredito”, explica o ex-designer têxtil, que ia a Paris duas vezes por ano apresentar suas coleções. Ao perceber que a indústria era extremamente nociva para o planeta, devido à grande quantidade de água gasta, decidiu tentar compensar esse impacto de algum modo — foi quando, durante a pandemia, plantou o primeiro ipê, na Avenida São Luís, e não parou mais.
O dinheiro não foi um problema. Aos 50 anos, a carreira na moda já o tinha deixado “multimilionário”, em suas próprias palavras. Ele estima já ter gasto 48 000 reais com o projeto e continua desembolsando cerca de 600 dos 2 500 reais mensais necessários para a manutenção das áreas, incluindo mudas, que ele mesmo compra ou recebe de doação. O restante vem das empresas do bairro. “Ainda estou pagando para trabalhar, mas a ideia é que os jardins se paguem no futuro”, conta.
Sua iniciativa tem gerado um evidente impacto positivo na vizinhança. “É um privilégio termos esse jardim, feito com tanta seriedade, sensibilidade e cuidado por Paziam”, elogia Olivier Anquier, proprietário do Mundo Pão do Olivier, onde ficam os jardins de chuva, e vizinho de Paziam. Cristina Alonso, gerente do Hotel Gran Corona, que fica ao lado da Galeria Metrópole, é outra admiradora: “Sempre o vejo arrumando os jardins. Acho o máximo. Se todo mundo tivesse essa inteligência, o centro já estaria melhor”. Ela e outros vizinhos brincam que ele deveria se candidatar a um cargo político. Paziam nem pestaneja: “Só quero ser jardineiro”.
Publicado em VEJA São Paulo de 30 de janeiro de 2026, edição nº2980





