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Vinho e Algo Mais

Por Por Marcelo Copello Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Especialista na bebida, Marcelo Copello foi colunista de Veja Rio. Sua longa trajetória como escritor do tema inclui publicações como a extinta Gazeta Mercantil e livros, entre eles "Vinho e Algo Mais" e "Os Sabores do Douro e do Minho", pelo qual concorreu ao prêmio Jabuti

Vinho tinto dá dor de cabeça? Entenda o que diz a ciência

Estudo indica que a bebida não causa enxaqueca na população geral; reação depende de fatores individuais e bioquímicos

Por Marcelo Copello
20 fev 2026, 06h00 • Atualizado em 23 fev 2026, 11h55
homem sentado com taça de vinho na mão
Vinho: o vilão da dor de cabeça? (Freepik/Divulgação)
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  • Por décadas, o enxofre foi apontado como culpado pela dor de cabeça depois de se tomar vinho. Hoje, admite-se que essa associação é infundada. Os sulfitos — conservantes tradicionais com esse elemento químico — não provocam cefaleia e ainda protegem a bebida contra oxidação e contaminação.

    Regulamentações internacionais até permitem níveis mais altos em brancos e doces, o que desmonta a ideia de que tintos seriam os vilões. Apenas asmáticos podem reagir ao SO₂ inalado, e com sintomas respiratórios, não dor de cabeça. Pesquisas recentes reforçam isso.

    Um estudo de 2024 (Fermentation, MDPI) mostrou que vinhos sem SO₂ apresentam mais microrganismos indesejáveis e maiores níveis de aminas biogênicas, como histamina e tiramina, associadas a rubor, palpitação e cefaleia em indivíduos sensíveis. Ou seja, retirar o enxofre pode aumentar — não diminuir — o desconforto.

    Em excesso, o SO₂ pode causar cheiro de fósforo queimado e irritação. O abuso maior ocorreu a partir dos anos 1960 quando a explosão da produção mundial de vinhos industriais cresceu. Hoje isso é raro na vinificação moderna, que usa doses baixas e precisas.

    A explicação mais convincente para a dor de cabeça do tinto surgiu em 2023. Pesquisadores da Universidade da Califórnia descobriram que a quercetina-3- -glucuronídeo, um composto natural das uvas tintas, bloqueia a enzima ALDH2, que elimina o acetaldeído — molécula tóxica gerada pelo metabolismo do álcool. Com a ALDH2 inibida, o acetaldeído se acumula, produzindo sintomas como cefaleia, náusea e rubor. A quercetina tende a ser mais alta em vinhos de climas quentes, de menor acidez e com longa maceração, explicando por que certos tintos geram reações.

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    Outros fatores também contribuem: desidratação, predisposição genética (incluindo variantes da ALDH2), histórico de enxaqueca e consumo em jejum. Uma meta-análise de 2025 concluiu que o vinho não causa enxaqueca na população geral — a dor de cabeça é uma reação individual.

    Há ainda um paradoxo: vinhos “sem sulfitos” podem ser mais problemáticos, pois ficam biologicamente instáveis e mais propensos a produzir histamina. Os sulfitos têm má fama imerecida; os verdadeiros culpados estão em nossa genética e no vinho, na interação entre fenóis e enzimas.

    Quem sofre com o problema pode reduzir os sintomas bebendo água, consumindo vinho sempre com comida, preferindo rótulos bem elaborados e evitando vinhos muito extraídos ou de regiões muito quentes.

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    A ciência atual mostra que os sulfitos não são vilões, mas aliados que preservam o vinho e reduzem riscos. A dor de cabeça do tinto resulta de um delicado equilíbrio entre química e biologia humana — e o papel do enólogo é manejar esses fatores com precisão.

    duas garrafas de vinhos com fundo branco
    Sugestão de rótulos (Reprodução/Divulgação)

    Sauternes Signature 2020
    Da Maison Ginestet, elaborado com sémillon (75%), sauvignon blanc (20%) e muscadelle (5%), em inox com 25 % em barrica por seis meses. Dourado claro. Aromas de damasco confitado, casca de laranja, mel claro e açafrão, marcados pela botrytis bem integrada. Paladar doce, untuoso, equilibrando doçura e acidez com elegância, mostrando frescor e precisão. R$ 517,90, na Grand Cru.

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    Chianti Classico Riserva 2019 Carpineto
    Com 80% sangiovese e o restante de canaiolo e outras castas da região italiana de Chianti, com doze meses em barricas de carvalho da França e da Eslavônia. Cor granada. Aromas de frutas vermelhas maduras, especiarias doces, café, florais cedro e tabaco. No paladar, mostra estrutura firme, acidez vibrante e taninos polidos. R$ 270,47, na Wine.

    Publicado em VEJA São Paulo de 20 de fevereiro de 2026, edição nº 2983.

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