Cory Wong cita Djavan e diz que aprendeu a tocar samba “do jeito certo”
O guitarrista americano das bandas Vulfpeck e The Fearless Flyers faz seus primeiros shows no Brasil neste sábado (21), em São Paulo
Só a mão direita do guitarrista Cory Wong valeria o ingresso dos shows que ele fará em São Paulo neste sábado (21), na Casa Natura Musical.
Fenômeno contemporâneo do instrumento, o músico americano de funk é conhecido por integrar as bandas Vulfpeck e The Fearless Flyers — e pelas suas levadas velozes e suingadas.
Nesta estreia em solo brasileiro, o artista traz a turnê do seu disco solo mais recente, Lost In The Wonder (2026), em que se destaca como músico e produtor, reunindo colaboradores em faixas solares que transitam entre o pop, o R&B e o soul.
Ele se apresenta com banda completa, formada por nove integrantes, incluindo uma seção de metais. Nascido em Minneapolis, começou a ganhar destaque ao entrar para o grupo Vulfpeck, em 2016.
Desde então, foi indicado ao Grammy pelo disco Meditations (2020), feito em parceria com Jon Batiste, e ganhou até uma linha exclusiva da guitarra Stratocaster, da Fender, com o seu nome.
Confira a seguir o papo com o músico, diretamente do seu estúdio nos Estados Unidos, onde trabalhava em novas músicas.
Sobre Lost In The Wonder (2026), você quis mostrar mais o seu lado produtor neste projeto?
Sim, a maioria das pessoas me conhece só como guitarrista. Mas com esse álbum eu quis explorar, expandir e aprofundar a minha expressão artística, mostrando mais o meu lado produtor. Quis focar na minha composição, arranjos e direção de banda. E, como produtor, em como isso tudo soa. Foi muito divertido. Também sou o guitarrista do álbum e toquei baixo em várias faixas. Gostei de colaborar e escrever com pessoas diferentes. Qualquer artista que queira evoluir precisa encontrar coisas que sejam divertidas e também desafiadoras. E esse foi um desafio muito empolgante.
Como essas músicas nasceram? Foi um processo mais coletivo, no estúdio?
Tem de tudo. Algumas eu escrevi sozinho e depois enviei para colaboradores. Outras nós entramos no estúdio e compusemos na hora. O processo foi diferente para cada faixa, mas foi muito divertido, porque experimentei formas diferentes de criação. Adoro colaborar, gosto de trabalhar com pessoas cuja arte eu respeito e entendo. E elas também precisam entender a minha arte e me desafiar a crescer. Às vezes essas colaborações saem um pouco do que o público desses artistas espera, mas vejo o meu álbum como um espaço seguro para eles experimentarem. E, para mim, é ótimo, porque elas tiram coisas de mim que eu não conseguiria sozinho.
Sobre a sua técnica de guitarra, como você chegou nesse estilo rápido e rítmico?
Tenho pensado bastante nisso. Comecei tocando punk rock e ska, com muita energia. Muita coisa vem dessa pegada intensa na guitarra. Depois, mergulhei no jazz, R&B e funk. Eu amava a harmonia do jazz e o groove do funk e do R&B, mas mantive aquela energia do punk. Acabei juntando tudo isso, e virou o meu som hoje.
E quem são seus guitarristas favoritos?
Prince, com certeza. George Benson, John Mayer, Pat Metheny, John Scofield. E também músicos menos conhecidos, mas que tocaram em discos enormes, como Dave Williams, David T. Walker e Paul Jackson Jr.
Eu ia te perguntar sobre o Prince, que também é de Minneapolis. Qual o tamanho dessa influência na sua carreira?
Cresci e ainda moro em Minneapolis. Se você faz parte da cena de funk e R&B daqui, é impossível escapar da influência do Prince. Tenho muito orgulho de fazer parte dessa linhagem de funk da cidade, que inclui também Morris Day and The Time, The Family, Jimmy Jam & Terry Lewis, Mint Condition… Todas essas bandas ajudaram a definir geograficamente um tipo específico de funk. Um subgênero. Quando comecei a tocar profissionalmente, muitas pessoas com quem eu tocava tinham trabalhado com Prince e nomes desse circuito. Com o tempo, fui entrando nesse meio e sendo orientado por essas pessoas, que até hoje são meus amigos e mentores. Semana passada, por exemplo, toquei com Michael Bland e Sonny Thompson, da New Power Generation. A gente toca junto, troca músicas, memes (risos)…
Sobre os seus shows no Brasil, o que podemos esperar?
De vez em quando, toco músicas do Vulfpeck e do Fearless Flyers. O legal desses shows no Brasil é que vou fazer duas apresentações no mesmo dia — uma mais cedo e outra mais tarde — e gosto de tocar repertórios diferentes. Então, serão dois shows distintos. Se você é fã, vale a pena ir nos dois. É minha primeira vez no Brasil, não sei quando vou voltar. Devem ser os únicos shows que faço aí por um bom tempo, então estou empolgado. Tenho esse desejo há muito tempo, quero muito chegar e, com sorte, me conectar com músicos brasileiros. Tenho muito respeito e amor pela música do Brasil.
Qual a sua relação com a música brasileira?
São muitos músicos incríveis. Como compositor, obviamente, Tom Jobim. Ele virou parte do repertório dos músicos nos Estados Unidos. Tem muita bossa nova, samba, MPB… Na faculdade, toquei com amigos brasileiros e aprendi a tocar samba e bossa do jeito certo, no violão de nylon, com os dedos. A harmonia é muito rica, com influência do jazz, e as melodias são pop. Mas a levada é muito específica, vai além do ritmo certo, é ter o “feeling”, o balanço correto. Tem aqueles standards, como Mas Que Nada, e muito da obra de Jobim. Djavan e Jorge Ben também. Aprendi muito sobre música tocando com meus amigos brasileiros.





