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Um papo franco com Odair José: “Não faço música pra ganhar dinheiro”

A vida e obra do compositor, que faz show em São Paulo, é tema de documentário inédito que será exibido no Festival Satyrianas; confira a entrevista

Por Tomás Novaes
14 nov 2025, 08h00
Odair José no documentário 'Vou Tirar Você Desse Lugar': exibição no Festival Satyrianas 2025, entre os dias 17 e 23
Odair José no documentário 'Vou Tirar Você Desse Lugar': exibição no Festival Satyrianas 2025, entre os dias 17 e 23 (Divulgação/Divulgação)
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Odair José, dono de uma das trajetórias mais singulares da música brasileira, é o foco do documentário Vou Tirar Você Desse Lugar (2025), que será exibido nesta segunda-feira (17) no Festival Satyrianas, nos arredores da Praça Roosevelt, em São Paulo.

Com mais de cinquenta anos de carreira, o cantor e compositor goiano — alvo da censura durante a ditadura e figura marcante dos anos 1970 com músicas populares e versos polêmicos — ganha agora um olhar retrospectivo. Dirigida por Dandara Ferreira, a obra é definida não como uma biografia cronológica, mas sim como um mergulho no universo do artista.

A exibição é um dos destaques do festival de cultura, com atividades de teatro, dança, circo, performance, cinema e literatura. O evento acontece entre os dias 17 e 23 nos espaços do Cine Satyros Bijou, Espaço dos Satyros, Espaço Parlapatões, Lona Satyrianas, Mamadi, SP Escola de Teatro, Studio Satyros e Tenda Satyrianas, além da área aberta da Praça Roosevelt (confira a programação completa no site).

O artista, que lançou nos últimos anos discos como Seres Humanos (e a Inteligência Artificial) (2024) e Hibernar na Casa das Moças Ouvindo Rádio (2019), ainda faz show na cidade nesta sexta-feira (14), no Bona Casa de Música. Confira, a seguir, a conversa franca com o compositor inquieto sobre passado, presente e futuro.

Quando e como você ficou sabendo do projeto deste documentário?

Conheci a Dandara há uns sete anos. Do nosso encontro nasceu o desejo dela de fazer um documentário sobre meu trabalho. Fomos conversando e, à princípio, confesso que não era algo que me interessava muito. Veio a pandemia, continuamos falando à distância, até que achei que poderia valer a pena e autorizei o projeto. Dois anos atrás começamos para valer e fui me envolvendo. De repente, o negócio estava pronto. Agora é torcer para que vocês gostem.

Qual foi a sua reação ao assistir o documentário pela primeira vez?

Não sei se é meu perfil, mas sempre dá uma tensão. Principalmente quando é sobre sua vida e seu trabalho, quando você faz narrativas e confessa coisas que as pessoas não sabem. Fico pensando: “Não devia ter falado isso, não devia ter falado aquilo”.

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Você já pensou em lançar uma autobiografia?

Tem alguém fazendo, depois de muita insistência. Biografia é assim, não tem como impedir — a pessoa vai fazer. Gravo discos há 56 anos e hoje tenho 77. Com uma trajetória longa, surgem versões que não são fatos, não aconteceram daquele jeito. Acho que chegou a hora de, enquanto estou aqui, contar como foi realmente. Há pouco tempo conheci o Márcio Sno e decidi fazer a narrativa desde os meus cinco anos até hoje. Só não gosto de falar de vida pessoal. A biografia será em primeira pessoa. E vai sair também, paralelamente, uma biografia em quadrinhos, pelo Laudo Ferreira.

Muitas canções suas foram censuradas na ditadura. No trailer do documentário, Paulo Miklos diz: “Odair é mais perigoso do que todos os outros da MPB”. Concorda?

No primeiro trimestre de 1972, quando apareço com Vou Tirar Você Desse Lugar, a censura me chama pela primeira vez. Dali para frente, acharam exatamente o que o Paulo disse: eu falava com as massas e levava pautas que eles não queriam que chegassem nas pessoas. Como o cara que vai casar com a prostituta (Vou Tirar Você Desse Lugar) ou o anticoncepcional (Pare de Tomar a Pílula), que era tabu. Era algo bom para as mulheres, que ganhavam autonomia sobre o próprio corpo, mas não era discutido assim. Era “coisa do diabo”. A música foi proibida justamente por isso — disseram que o governo tinha a proposta de distribuir anticoncepcionais em hospitais. A canção foi proibida no Brasil e em toda a América Latina onde saiu, porque a ideologia era a mesma.

É verdade que enviaram uma carta às gravadoras dizendo que você era “péssima influência”?

Soube dessa carta por volta de 1973. Ela veio do governo, via censura, para a Polygram, com cópia para outras gravadoras. No texto, sugeriam que não gravassem discos comigo e me chamavam de péssima influência. Fui falar com a direção da gravadora, com o André Midani. Ele minimizou, disse que era boato, e eu acreditei. Mas há uns dez anos participei de um documentário sobre o período e tocaram no assunto. Me mostraram a página — e era a carta. Fiquei tomado de emoção. Que absurdo, que coisa terrível.

O disco O Filho de José e Maria, de 1977, não foi bem recebido à época, mas hoje é cultuado. Era um álbum à frente do seu tempo?

Talvez seja o disco mais emblemático da minha carreira. A minha maneira de criar e dar o meu recado é a mesma desde 1972. Em determinado momento, pensei que estava me repetindo, sendo uma cópia de mim mesmo. Eu queria entregar uma novidade, já que era um grande vendedor de discos. No sentido de algo relevante para o público, e não ficar só fazendo negócio. Mas não deu certo, no sentido comercial. As pessoas bateram muito. Parece que foi feita uma corrente para travar o projeto. Fiquei com medo e comecei a fazer discos nada a ver, o que a gravadora queria. Sei que às vezes as pessoas ficam contra as minhas músicas porque elas provocam. E a resposta é jogar um rótulo ou menosprezar. Na época parei de fazer isso, ainda mais com a censura do governo federal. O disco tinha 18 canções, saíram 10, as outras foram travadas. E as que saíram também foram travadas, mas pela hipocrisia das pessoas. Vivi para ver, quase 50 anos depois, esse disco ser redescoberto. Ou seja: eu não estava errado, errado estava quem me brecou de todas as maneiras.

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No ano passado, você lançou Seres Humanos (e a Inteligência Artificial). Como vê o tema hoje?

Nesse projeto eu volto a chamar a atenção das pessoas para um tema. Eu não faço música pensando em ganhar dinheiro ou no sucesso. Eu crio pensando se ela vai relevância para as pessoas e se vai alcançar aquilo que eu quero. Neste caso, alcançou. Na época, já imaginava que seria uma ferramenta que participaria da vida das pessoas de uma forma muito intensa, tão importante ou até mais do que a própria internet. Com esse título, estou chamando a atenção das pessoas. Não o intelectual que já conhece, mas o povão. E a ideia do disco era ter um som analógico, como na década de 70. Mas, no meio do caminho, usamos a tecnologia para tocar vários instrumentos, na produção e na capa. Assim consegui passar para as pessoas uma presença ainda maior desta tecnologia. O álbum foi lançado há mais de um ano, e comecei a pensar nele há dois. Hoje a inteligência artificial é uma realidade na vida de todos. E será cada vez mais presente.

Você está pensando no seu próximo disco ou projeto?

Sim. Não sei fazer outra coisa — sou compositor. Me descobri assim aos 14, toco desde os sete. É minha forma de passar recados, de participar do social como despertador de mentes. Em Seres Humanos, por exemplo, tem Desejo, em que digo: assuma os seus desejos. Às vezes a pessoa tem uma vontade e não faz porque pega mal ou porque a sociedade não vai gostar. Essa é minha função como compositor. Estou pensando no próximo projeto, tenho uma ideia de como será.

Você mora em São Paulo há quanto tempo?

Nasci em Goiás, fui para o Rio com 17 para 18 anos. Vim para São Paulo em 1983 ou 1984 e nunca mais saí. Gosto muito. Me sinto um paulistano.

E o que você vai tocar no show desta sexta-feira (14), no Bona Casa de Música?

A casa é muito agradável e intimista. Desta vez será algo mais acústico. Vou de violão e terei uma pessoa no piano. Fico livre, posso tocar o que quiser. Vou tocar coisas que as pessoas conhecem e outras que não. Tenho essa preocupação: quem vai ao meu show não pode ver a mesma coisa que viu no ano passado. Sempre trago algo diferente.

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