Embora faça parte da natureza do sexo feminino, o climatério foi, por muito tempo, um assunto particular, discutido, se tanto, entre médicos e pacientes, na intimidade de um consultório. Não era tema de vídeos, livros ou espetáculos teatrais. O termo, inclusive, ainda confunde muita gente, que não sabe que ele define a transição fisiológica do corpo feminino para a fase não reprodutiva. Esse período engloba a menopausa (fim da menstruação), palavra frequentemente usada para nomear a fase de desconfortos que muitas enfrentam na meia-idade.Felizmente, menopausa e climatério já não soam mais como algo estranho. E as responsáveis por isso são mulheres famosas e anônimas que ampliaram a discussão e começaram a buscar alternativas para lidar com os desafios dessa etapa da vida. Falando abertamente de sintomas, físicos, mentais e emocionais, elas estão mostrando que não estão mais dispostas a viver isso tudo sozinhas e em silêncio.Um levantamento feito pelo escritório de pesquisa de tendências digitais Timelens, nos últimos doze meses, comprova isso ao mostrar que a menopausa está entre os assuntos que mais despertaram interesse entre os brasileiros. O estudo, que levou em conta dados do Google Trends, das redes sociais, de fóruns e notícias veiculadas na web, apontou que as buscas pelo termo menopausa cresceram 42%. Quem mais pesquisou sobre o assunto foram mulheres (85%) na faixa dos 45 aos 54 anos (45%).Mas nem é preciso recorrer aos números para saber que o envelhecimento feminino, em geral, e a menopausa, em particular, estão em alta no momento: basta observar o número de livros, vídeos, podcasts, produções cinematográficas e peças de teatro que vêm tratando o assunto com leveza e bom humor. Entre os exemplos estão o podcast Zen Vergonha, da apresentadora Fernanda Lima, e a peça Menopausa, estrelada por Claudia Raia nos palcos de Portugal. “Existe uma imposição de que a mulher só é válida enquanto reproduz. Isso é uma loucura”, comenta a atriz Paula Cohen, atualmente em cartaz com o espetáculo Finlândia, que expõe o desencontro de um casal em plena crise de meia-idade. Paula, que aos 50 anos entrou no climatério (veja no box abaixo), não está sozinha.Segundo cálculos do IBGE, aproximadamente 30 milhões de mulheres no Brasil estão nessa fase da vida, ou seja, quase 8% da população feminina. E somente cerca de 238 000 foram diagnosticadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Por outro lado, de acordo com a Agência Senado, com informações da revista científica Climacteric, 82% das brasileiras entre 45 e 55 anos apresentam sintomas que comprometem sua qualidade de vida. Além do calorão, ou fogacho, muitas vivem sintomas como depressão, irritabilidade, falta de libido, ressecamento da pele, cansaço e névoa mental. Sensações que afetam diretamente a qualidade de vida, as relações interpessoais e até mesmo o desempenho profissional. É preciso, portanto, avançar nos cuidados com essa população.O Ministério da Saúde informou, por meio de nota, que tem promovido ações para qualificar o cuidado às mulheres no climatério e na menopausa, investindo na capacitação dos profissionais. Atualmente, o tratamento no SUS inclui terapia hormonal (com indicação médica), mas há intenção de ampliar as opções terapêuticas. Há ainda práticas integrativas e complementares disponíveis, como fitoterapia, acupuntura, ioga e meditação. “A menopausa não é uma doença, mas adoece”, diz a ginecologista e obstetra Fabiane Berta (leia a entrevista abaixo).VEJA SÃO PAULO ouviu sete mulheres que relatam como lidam com o climatério e a menopausa. "Não somos loucas, somos hormonalmente complexas", afirma médicaFabiane Berta, médica, ginecologista e obstetra formada pela Faculdade de Medicina da Santa Casa, responde a algumas das principais dúvidas sobre a menopausa.Quais são os sintomas?Existem entre 76 e 100 sintomas diferentes. Cada mulher tem sua singularidade, mas os principais são sempre os mesmos: fogachos, suores noturnos, depressão, disforia, dores no corpo. Também se fala muito de ressecamento íntimo, aumento de peso. Outros sintomas menos comuns são língua e boca secas, olho ressecado, mudança na composição capilar…Por que os sintomas mentais são menos discutidos na mídia?Não fomos educadas sobre menopausa. A gente acha que é estresse, que é burnout. A mulher perde as expectativas dela para o futuro, para de ser ela mesma. Ela passa uma vida inteira sendo subserviente para outros, para uma maternidade, uma família, os amigos. E aí, quando entra na maturidade, quando os filhos já cresceram e ela está com estabilidade financeira, na plenitude, o corpo se dissocia da cabeça e começam as ideações suicidas, a depressão.Qual é o papel da reposição hormonal? Quando usamos com uma prescrição adequada, coerente e inteligente, é a melhor forma de predição e prevenção da saúde da menopausa. Os benefícios são, primeiro, mentais. Você melhora depressão, ansiedade e também pode ser uma prevenção do Alzheimer, segundo estudos recentes. Melhoram os fatores cardíacos porque ela tem uma ação dentro dos vasos e faz uma proteção autorreparo. Ela ajuda a aumentar a massa óssea em casos de osteoporose, melhora a composição de gordura da mulher.Ela é contraindicada para alguém?Não é recomendada para quem tem trombose, câncer de endométrio, câncer de mama. A terapia hormonal é evitada durante a doença e seu tratamento.Reposição hormonal aumenta a chance de câncer?Existe um mito de que hormônio dá câncer, o que já foi desmentido há muito tempo. O que dava câncer foi o que se usou há vinte anos, uma combinação de estrogênio derivado de urina de égua prenha com uma injeção química. Essa combinação não foi favorável. Não é o que a gente usa hoje.Como é a oferta de reposição no SUS?A disponibilidade de tratamentos específicos no SUS é limitada. A terapia hormonal não é amplamente oferecida na rede pública de saúde, e das diversas opções no mercado — transdérmicos, adesivos e pellets —, o SUS possui pouquíssimas, que na grande maioria das vezes não são as melhores. São hormônios mais antigos e de mais baixa qualidade, que não atendem a todas as necessidades das mulheres. Existem diferenças regionais: em São Paulo, a oferta é mais avançada, com mais variedade, mas não é a realidade de todos os postos do SUS. Existe um despreparo completo para a assistência da menopausa na saúde pública.Com quantos anos devo começar a me planejar para a menopausa?A partir dos 40 anos.Stylist Fernanda Lima: Rodrigo Grunfeld Agradecimentos: De Goye, Yves Saint-Laurent, Sawara Joias e Flávia Madeira (Fernanda Lima); Iara Wisnik (Paula Cohen)Publicado em VEJA São Paulo de 7 de março de 2025, edição nº2934